Review – Sleep No More

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[Spoilers, shh]

Sleep No More, escrito por Mark Gatiss (The Idiot’s Lantern, Cold War), é um episódio experimental em vários sentidos. Primeiro e mais obviamente, é construído no formato found footage consagrado por filmes como A Bruxa de Blair, [REC], Atividade Paranormal e Cloverfield, onde todos os planos veem de uma filmagem feita por algum dispositivo inserido na própria encenação. Segundo, desconfio que seja o único episódio dos 50 anos da série a não contar com uma abertura acompanhada da música tema. Com a exceção do título do programa, que aparece destacado em meio de várias letras e números como uma interface de computador, não há em nenhum momento uma intervenção narrativa feita de fora, incluindo uma característica intrínseca de Doctor Who: a trilha sonora de Murray Gold que, aqui, não é invasiva e, quando ocorre, pode facilmente se disfarçar com os sons ambientes.

Isso não significa que o narrador é inexistente. Dirigindo-se diretamente ao espectador, o professor Gagan Rassmussen (Reece Shearsmith) avisa que compilou imagens de várias fontes diferentes e as editou para contar o que aconteceu na estação espacial Le Verrier, em órbita de Netuno. Rassmussen é o autor e narrador cênico, e suas intenções nefastas se revelam no fim. O episódio é uma arma, seus acontecimentos orquestrados para criar uma trama engajante que levasse pessoas de toda a galáxia a assistirem e, dessa forma, também se transformarem nos medonhos Sandmen. Gatiss talvez tenha encontrado uma boa maneira de se isentar de responsabilidade para com os furos de roteiro (apontados pelo próprio Doctor no fim do episódio); também encontrou uma maneira de introduzir ângulos impossíveis em um esquema found footage, como um ponto de vista de Clara, transformando a ramela do olho em câmera (!). Muitos elementos de Sleep No More parecem subterfúgios para facilitar a realização do episódio, mas o resultado final acaba sendo tão interessante que esses são facilmente perdoáveis. Tirando a explicação para a origem dos Sandmen. Essa não dá pra perdoar não.

A própria montagem se diferencia do usual. Aqui, Capaldi e Coleman, acompanhados dos coadjuvantes, têm uma chance maior de trabalharem com intervalos de tempo entre diálogos, uma encenação naturalista que ajuda a situar o espectador dentro da ação (o que ele já está literalmente, tomando emprestado os olhos de outros personagens). Todos esses elementos adicionam à usual trama de base sob ataque, tão explorada na era de Patrick Troughton como Doctor, uma dimensão mais próxima dos contemporâneos videogames em 1ª pessoa.

Assim como outras séries de ficção científica como Star Trek: The Next Generation e The X-Files, que também trouxeram às telas histórias “fora da caixa” em termos de narrativa, mise-en-scène e montagem, é ótimo ver como Doctor Who, prestes a terminar o 10º ano no ar em seu formato moderno, abre espaço para uma experimentação estrutural e dramática. No fim, parece que todos nós, espectadores do mundo real, fomos personagens da história, pois assistimos ao vídeo maldito e estamos a poucos passos de nos tornarmos monstros de pó humano.

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