Review: Listen

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Desde o teaser no fim do episódio passado, Listen prometia ser um episódio muito assustador. No fim, foi mais do que isso: apresentou um vislumbre do passado do Doctor de uma significância na qual os roteiristas raramente se arriscam a explorar. O diferencial deste episódio se mostra logo na sequência de abertura, que mostra o Doctor em um solilóquio sobre a possibilidade da existência de uma criatura com uma capacidade perfeita de se esconder, e de a percebermos inconscientemente quando falamos sozinhos. Não é o monstro que aparece no caminho, é o próprio Doctor que vai atrás dele dessa vez. É interessante notar como, nessa temporada, não houve duas aventuras que se seguiram imediatamente, o que indica que o Doctor está viajando sozinho parte do tempo.

Esta dinâmica de companion on/off permite que a vida pessoal da Clara seja desenvolvida. Continuando a relação com Danny iniciada em Into the Dalek, este episódio trouxe fortes indicações sobre o futuro da companion na figura de Orson Pink que, ao que tudo indica, é descendente de Clara e idêntico a Danny. Orson é apenas uma parte da narrativa; anteriormente, o pequeno Danny, que na época se chamava Rupert, aparece em um orfanato atormentado por uma misteriosa criatura escondida embaixo de seus lençóis. Inusitadamente, esta cena nunca é explicada: com o fim do episódio trazendo em cheque a existência real desse monstro, não se sabe o que estava lá embaixo. Talvez, como Clara indica, tenha sido apenas outra criança.

Tanta ambiguidade narrativa pode incomodar parte dos espectadores, mas com a chegada da última cena, todos os fios narrativos que ficaram pendurados (a forma no lençol, as batidas na porta da nave) se tornam desnecessários. Nesse momento, é revelado o tema principal da história: o medo. Definitivamente um dos grandes momentos de toda a série, é mostrado um momento da infância do Doctor, chorando em um celeiro (o mesmo que o War Doctor visita em The Day of the Doctor) pois não quer se tornar um soldado. Quando Clara percebe que a busca no qual estavam era motivada por um medo decorrente de um acontecimento que ela mesma provocou, a companion se vê na posição de consolá-lo como ela havia feito há pouco com Rupert e usando as palavras que o Doctor havia dito a ela

E é aí que percebemos o real escopo da importância de Clara na vida do Doctor. Ela não apenas o acompanhou a vida toda e o convenceu que havia outra maneira de terminar a Time War que não o genocídio, mas também o inspirou a ser quem ele é mais profundamente. Não haveria Doctor se não fosse por Clara. Megalomania do Moffat a dar tanta importância para sua companion? Talvez, mas a cena é maravilhosa de qualquer jeito. Dan, o soldado sem arma, se relaciona com o Doctor desde a primeira vez em que aparece, mas no fim, há uma relação fundamental entre os dois. Isso também desenvolve o asco do Time Lord por figuras militares, que sempre andam, ao contrário dele, armadas.

Deve-se destacar também a excelente fotografia do episódio, repleto de sombras em todos os momentos. Muito foi dito sobre o quanto esta temporada está sombria, e esse episódio levou essa característica ao pé da letra.

Um dos episódios mais arriscados das últimas temporadas (não há um vilão!), Listen foi um maravilhoso estudo sobre a psique do Doctor. Viajando sozinho, é fácil deixar o medo tomar conta. Mas afinal de contas, o medo é um superpoder, e, desarmado, ele continua sendo um grande herói.

 

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