Review: Genesis of the Daleks

Genesis of the Daleks


Dona River informa: o texto a seguir contém spoilers. Você pode baixar Genesis of the Daleks no Universo Who clicando aqui.

Uma das cenas mais famosas da história do cinema vem do filme O Sétimo Selo, dirigido pelo sueco Ingmar Bergman em 1957, na qual um cavaleiro medieval encontra a Morte em uma praia e é convidado para um jogo de xadrez. 18 anos depois, essa cena inspiraria o começo de uma das histórias mais famosas da história de Doctor Who, onde o Doctor é persuadido por um Time Lord – que veste um traje muito parecido com a Morte de Bergman – a executar outra tarefa: a aniquilação total dos Daleks.

No dia 8 de março de 1975, foi ao ar na BBC One o primeiro episódio de Genesis of the Daleks, que se tornaria o arco mais famoso de toda a série clássica, com o 4º Doctor (Tom Baker) e os companions Sarah Jane Smith (Elisabeth Sladen) e Harry Sullivan (Ian Marter). Assinada por Terry Nation, o criador dos alienígenas de Skaro, esta história introduziu o maníaco cientista responsável pelos sanguinários saleiros: Davros, interpretado por Michael Wisher pela única vez na série.

A gênese do mal

Nation nunca manteve segredo sobre sua inspiração para criar os Daleks. Ao pensar no que mais o amedrontava, vinham à sua cabeça memórias da ainda recente 2ª Guerra Mundial e do terror sofrido pela Inglaterra nas garras da blitz alemã. Sendo assim, a escolha mais lógica para basear uma raça de alienígenas malvados: os nazistas. No segundo arco da série, que foi ao ar em 1963, o 1º Doctor conhece os Daleks, enclausurados em sua cidade e pensando apenas em exterminar todas as raças diferentes. Ao ser desafiado por Philip Hinchcliffe e Robert Holmes, que estavam entrando como os novos produtores-executivos da série, a escrever algo diferente do que tudo que já havia sido feito sobre os Daleks, Nation decidiu contar a sua origem e, para isso, expandiu as comparações com o nazismo.

No começo da história, soldados usando máscaras de gás (não, eles não são a sua mãe) são fuzilados em câmera lenta, em um choque de violência realística que já determina o tom do resto dos episódios. Esta decisão foi feita por Hinchcliffe e Holmes em uma tentativa de tornar a série mais adulta, se distanciando completamente do roteiro de Nation, que colocava o encontro entre o Doctor e o Time Lord em um paradisíaco jardim. Aqui, a missão fatídica é entregue a Tom Baker no meio das ruínas do planeta Skaro, destruído por uma guerra de 1000 anos entre os Kaleds (momento anagrama) e os Thals.

Após uma cena com um suspense brilhantemente executado no qual o Doctor pisa em uma mina terrestre, ele e Harry são capturados e levados para o bunker dos Kaleds, enquanto Sarah Jane vai parar no lado dos Thals. O mais impressionante na caracterização dos Kaleds é o quanto ela remete a simbologias e imagens marcadas no consciente coletivo: os uniformes cinzentos, a cruz de ferro e as saudações com braços ao ar. Se faltava um líder com forte presença e dado a discursos berrantes, não falta mais.

Davros

Talvez Genesis of the Daleks não teria a fama que tem se não fosse pelo vilão que introduz. Davros, com seu ameaçador olho central e uma cadeira motorizada que espelha o design da base de um Dalek, desfruta das melhores cenas do arco. Após interrogar o Doctor sobre todas as derrotas sofridas por sua criação no futuro, o Time Lord o faz uma pergunta: se Davros tivesse em suas mãos um frasco contendo um micro-organismo capaz de destruir todas as formas de vida, ele o abriria? A resposta de Davros (“Sim, eu o faria!”) dá a chance para Wisher demonstrar sua soberba interpretação e acrescenta uma nova camada de perversão nas motivações do personagem, consolidando-o no cânone da série. Vestindo uma máscara que só revelava sua boca e com uma mobilidade severamente limitada, o ator dependia apenas de sua voz para demonstrar emoção. Por ter feito a voz de Daleks em episódios anteriores, ele domina essa tarefa com uma maestria que não foi atingida por nenhum dos atores que interpretaram Davros posteriormente.

A presença de Davros ofusca até mesmo os Daleks, que, por boa parte da história, se limitam a seguir ordens silenciosamente, invadindo e exterminando os habitantes do domo dos Thals. É apenas nos últimos minutos, após o momento Frankenstein em que a criatura mata o criador, que um dos Daleks apresenta um dos monólogos mais famosos da série: “Estamos sepultados, mas sobrevivemos. Este é apenas o começo. Nós nos prepararemos, nós nos fortaleceremos. Quando chegar a hora, emergiremos para tomar nosso lugar como o PODER SUPREMO DO UNIVEEEEEEEERSO!!”

Por fim, o que faz Genesis of the Daleks ser 142 minutos de pura genialidade televisiva? Uma combinação perfeita de um roteiro ágil, atuações intensas e uma caracterização bruta e realista de violência e terror quase que inadmissível em uma programação da hora do chá.

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