Por que Doctor Who não ganha destaque em premiações?

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Artigo escrito por Huw Fullerton, do Radio Times:

Ontem (18 de janeiro de 2016), em um post atacando a falta de diversidade em indicações de premiações (particularmente depois do fato de que apenas atores brancos garantiram todas as 20 indicações ao Oscar neste ano), a diretora de televisão Rachel Talalay se posicionou veemente na defesa de uma das séries em que ela trabalhou recentemente – Doctor Who – e comparou sua luta para ganhar atenção das premiações convencionais (sua última vitória principal no BAFTA, com votação fechada ao público, foi em 2008).

“Sim, claro, Peter Capaldi é um grande ator, mas quem liga para aquela série de crianças?” Talalay imaginou os jurados especulando. “É ficção científica e não um drama ‘real’, vai ficar ao ar para sempre e nós precisamos apoiar shows novos e frescos.”

Agora, é claro que isso pode ter vindo como algo ácido de Talalay e devemos levar em consideração o fato de que as indicações ao Emmy e ao BAFTA ainda não foram anunciadas. Apesar disso, eu acho que há muita verdade no que Talalay criticou – e isso é um sintoma de um problema maior. Doctor Who não foi consistentemente ótimo nas temporadas recentes, mas 2015 foi um bom ano para a BBC. Os destaques incluem a atuação solo de Peter Capaldi no penúltimo episódio, Heaven Sent, e a alegoria política temporal de The Zygon Invasion/The Zygon Inversion, e eu honestamente acho que foi o melhor que o show esteve em anos. Porém, eu ficaria muito surpreso em vê-los representados nas cerimônias, porque Doctor Who apenas não é mais o tipo certo de série para isso.

Como Talalay aponta, o problema é duplicado. Primeiramente, existe a questão de que o gênero de Doctor Who sempre mudará o tom das premiações, porque não importa o quão inteligente ou quão incisiva a ficção científica seja, ela sempre será tachada como um gênero infantil (exceto em circunstâncias excepcionais). Para alguns apenas não é realista, e não importa o quanto a história é boa ou as performances que ela possui, não conseguirá atingir o nível tão alto de cultura de um detetive que teve um passado difícil ou uma pessoa famosa que lutou para chegar no lugar que está.

O segundo problema que Doctor Who enfrenta (como Talalay também fala) é de que não é uma série nova. Quando o show voltou em 2005 em grande festa, a série se deu muito bem em algumas premiações (ganhando diversos prêmios em 2006), mas este tipo de cerimônia sempre prefere apoiar algo novo e empolgante a um drama de longa data que está retornando. Realidade e shows novos em folha têm suas categorias próprias para se sobressair, mas não há categoria para um excelente drama que esteja voltando a ficar bom após duas temporadas. E não é apenas Doctor Who que sofre com isso – que chances possui uma série como Silent Witness, que está excelente recentemente, de conseguir a atenção que merece após 20 anos ativa?

O foco dos organizadores para o novo e o “sério” é sufocante, e isso não termina com a televisão. Olhe para Star Wars: O Despertar da Força, o maior filme no mundo no momento com quase nenhum reconhecimento no Oscar ou no BAFTA. É claro que a explicação para isso parece óbvia para nós. É popular, um retorno, uma porcaria que não é intelectual e com espaçonaves. Isso não é cinema “bom”.

E por que não é bom? Por que um filme no mundo real é objetivamente melhor do que um sci-fi bem feito? O que é mais profundo – a história de um homem sendo atacado por um urso [referência ao filme The Revenant, estrelado por Leonardo DiCaprio] ou um filme que sobre um homem girando um sabre de luz? E por que nós aceitamos cegamente a cultura esnobe de que um naturalmente é mais merecedor de entreter do que o outro?

É claro que não estou dizendo que o último Star Wars é necessariamente tão bom quanto as obras de arte que estão sempre indicadas a Melhor Filme, mas podemos mesmo dizer que é pior do que todos eles apenas por conta do formato da história? Enquanto honrar uma história contada fora da realidade é considerado raso, alguém que escreva uma série de TV ou um filme apenas por conta de faixa etária e gênero também é?

“Eu não estou procurando por votos,” Talalay concluiu em seu post. “Eu só estou pedindo para que o juri assista e julgue os trabalhos, não julgue por noções pré concebidas do que a série conta como todo concorrente do Oscar esperaria – assista antes de votar.”

Em um mundo justo, isto é o que temos – mas enquanto a época de premiações continua, eu não consigo parar de pensar em que as pessoas tiveram suas mentes feitas sobre certas séries e gêneros há muito tempo.

 

Fonte: Radio Times

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