[Opinião] Negros protagonistas em Doctor Who: precisava de campanha?

Na semana passada, os londrinos foram surpreendidos com uma campanha publicitária clandestina que questionava a falta de protagonistas negros nos filmes e séries britânicos, inclusive em Doctor Who.

Apesar de já ter havido um Doutor não-cânone negro, a era moderna da série tem trazido um número cada vez maior de atores e atrizes negros, assumindo desde personagens de apoio, mocinhos e mocinhas, vilões, até companions fixos.

Ousando atualmente ao protagonizar pela primeira vez uma mulher no papel do então unicamente masculino Doutor e por ser conhecida como uma série que trata e ensina a tolerância e aceitação das diferenças, será que Doctor Who precisava ser o alvo de uma crítica desse formato?

Para ajudar a tirar suas próprias conclusões sobre esse tema, leia o que separamos para você se manter informado sobre a negritude em Doctor Who, um apanhado histórico da série e opiniões de quem lida diretamente com o tema racial nela.

 

A campanha clandestina

Quatro amigos britânicos resolveram recriar pôsteres de filmes e séries famosas trocando os protagonistas brancos por pessoas negras não famosas.

A ideia começou nas mídias sociais, mas ganhou clandestinamente as ruas de Londres, com cartazes espalhados em pontos de ônibus.

O texto que acompanha os pôsteres é o seguinte:

“Se você está surpreso(a), significa que você não vê pessoas negras o suficiente em papéis principais. Junte-se a nós em nossa missão por melhor representação negra na mídia.”

Dentre as sátiras, estão produções como Harry Potter, Titanic e Legalmente Loira (adaptado para “Legalmente Negro”), dentre vários outros… inclusive Doctor Who.

A mulher negra que assume subjetivamente a posição de Doutora no pôster é uma amiga da mãe de um dos ativistas responsáveis pela campanha. Todos os negros nos demais pôsteres também eram amigos ou familiares dos quatros jovens ativistas.

A campanha havia sido implementada de forma não autorizada na madrugada de quarta-feira, dia 28 de fevereiro, durante uma nevasca em Londres. Dois dias depois, todos os cartazes já haviam sido retirados pela empresa JCDecaux, que detinha o direito de uso dos pontos de ônibus para propagandas.

A exposição durou menos de dois dias.

 

Representatividade defectiva

Mais detalhes jornalísticos sobre esse fato, que repercutiu em vários sites importantes do Reino Unido e do mundo, também podem ser lidos no site brasileiro O Globo, na matéria “Campanha substitui atores brancos por negros em cartazes de filmes“.

A notícia ainda traz a seguinte informação:

“Segundo levantamento do Instituto Britânico do Cinema, atores negros representaram apenas 218 personagens centrais em 1.172 filmes britânicos lançados entre 2006 e 2016, que tinham ao todo cerca de 45 mil papéis centrais.”

Esse dado significa que menos de 0,5% de todos os papéis principais foram interpretados por pessoas negras, durante uma década inteira de filmes britânicos.

 

Falta talento ou oportunidade?

O cinema começou a engatinhar em meados de 1900, e foi só em 1939 que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas concedeu pela primeira vez um Oscar para uma atriz negra, chamada Hattie McDaniel, na categoria Atriz Coadjuvante, pelo papel que desempenhou no filme “E o Vento Levou”.

Assista ao discurso completo abaixo, com duração de 1 min:

No discurso de premiação, ela disse, ao entrar para a história, uma frase em especial:

“Quero agradecer a cada um de vocês que tiveram parte em me escolher para um de seus prêmios.”

A primeira atriz negra a receber uma premiação deste porte fez questão de agradecer às pessoas que a deram oportunidade de estar ali. Por estar muito emocionada, Hattie não conseguiu dizer tudo o que sentia no momento, mas o discurso foi complementado muitas décadas depois…

Foi em 2015 que a atriz Viola Davis, ao receber um Emmy de Melhor Atriz (o primeiro da história para uma atriz negra nesta categoria), sendo uma das duas atrizes negras a concorrer em meio a outras quatro atrizes loiras, explicou direitinho, sem deixar subtextos:

“A única coisa que separa mulheres negras de quaisquer outras pessoas é oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que não existem. Eu dedico esse prêmio a todos os roteiristas (…) que redefiniram o significado de ser bonita, de ser sensual, de ser protagonista, de ser negra.”

Assista ao discurso completo de Viola abaixo, citando os roteiristas e as atrizes que outrora “abriram a porta” para as importantes premiações para mulheres negras:

 

Disrupção em Doctor Who

Desde que surgiu, em novembro de 1963, Doctor Who já nasceu com um posicionamento diferenciado. O criador Sydney Newman fez questão de entregar a ideia para a produtora iniciante Verity Lambert. Era a primeira mulher na BBC a produzir uma série de TV, e esse era o primeiro trabalho dela como produtora.

Indo contra todos os comentários negativos, previsões pessimistas sobre a liderança do programa e insinuações maliciosas sobre como ela teria conseguido o cargo, Verity fez de Doctor Who um sucesso, que se mantém ativo por mais de meio século. Para saber mais sobre essa mulher, leia o nosso artigo “Você precisa conhecer: Verity Lambert“.

Mesmo Verity sendo branca, a disrupção inicial de Doctor Who era justamente ter a competência de uma mulher à frente da série, que contou com uma sequência de papéis femininos importantes e fortes, tais como as companions Barbara Wright (Jacqueline Hill) e Sarah Jane Smith (Elisabeth Sladen) e as Time Ladies Romana (Mary Tamm e Lalla Ward) e Rani (Kate O’Mara), todas da série clássica.

Vale lembrar ainda que Doctor Who também já trouxe para as telas uma atriz trans e gay, Bethany Black, que interpretou uma soldado do futuro, que não era nem trans, nem gay, apenas uma mulher, com papel relevante em “Sleep No More“.

Atenção!
O conteúdo a seguir contém alguns spoilers sobre o destino de personagens das eras moderna e clássica.
Continue lendo por sua conta em risco.

 

Os primeiros negros em Doctor Who

A primeira pessoa negra na série clássica de Doctor Who foi o ator Roy George Elroy Josephs, que interpretou o pirata Jamaica, no arco 028 – The Smugglers, em 1966 (três anos após a estreia do programa).

O papel não durou muito. A personagem dele fracassou em vigiar o 1º Doutor, que estava prisioneiro, e acabou sendo assassinado por causa disso, como punição.

Infelizmente, o trabalho de Elroy faz parte dos episódios perdidos da série clássica, e apenas alguns quadros de imagem sobraram em reconstruções.

O arco faz parte da 4ª temporada de Doctor Who, e é o penúltimo da era do 1º Doutor. O arco seguinte, que marca a saída do ator William Hartnell no papel do primeiro protagonista da série, também já é o segundo a elencar outro ator negro – uma pessoa em especial.

O ator bermmudense Earl Cameron não foi apenas o “segundo negro” de Doctor Who. Antes disso, ele foi ninguém menos que o primeiro ator negro em um filme britânico. Foi em “007 contra a Chantagem Atômica” (originalmente apenas “Thunderball“), de 1965, que Earl entrou para a história britânica como o primeiro ator negro.

Um ano depois, Earl também entrava para o cânone de Doctor Who, no arco “029 – The Tenth Planet” (o último do 1º Doutor), interpretando o astronauta Williams. Infelizmente, a personagem dele também morre cedo demais. Por outro lado, o arco não está perdido, e temos as filmagens dele completas.

Por isso, muitas vezes Earl é creditado erroneamente como o primeiro ator negro de Doctor Who, mas agora você já está bem informado de que o primeiro foi, na verdade, Elroy Josephs.

Ao contrário de Elroy, que faleceu em 1997 prestes a completar 58 anos, Earl ainda está vivo – e com 100 anos de idade. Ele nasceu em 1917 e deve completar 101 anos em agosto de 2018. Ele é atualmente, de Doctor Who, o ator mais idoso ainda vivo.

 

Em 1980, Sharon, a 1ª companion negra

Não foi o 10º Doutor a ter a primeira companion negra. Bem, na TV sim, mas Doctor Who vai muito além da série televisiva. O 4º Doutor foi (até agora) quem teve o registro mais antigo de uma companion negra; e o nome dela é Sharon Davies.

Sharon existiu apenas nos quadrinhos, nunca foi interpretada por qualquer atriz, mas a personagem era negra, pobre e inteligente. Ela surgiu em 1980, na revista Doctor Who Weekly, e foi a primeira companion criada pela revista.

O autor foi o quadrinista britânico (e branco) Pat Mills, conhecido por ter escrito quatro histórias em quadrinhos do 4º Doutor e três audiodramas pela Big Finish.

A intenção dele era que Sharon fosse propositalmente…

“…uma heroína fora dos padrões”.

 

Em 2006, Mickey, o 1º companion negro

Apesar de ter aparecido primeiramente em 2005, na reestreia de Doctor Who, como personagem secundário, foi só na 2ª temporada da era moderna que Mickey Smith, interpretado pelo ator negro Noel Anthony Clarke, entrou na TARDIS para tornar-se o primeiro companion negro da história da série.

A participação dele não foi fixa na TARDIS, como era a de Rose Tyler, mas os critérios de companion se encaixam na descrição de Mickey.

Mickey começou como um personagem patético, ridicularizado pelas atitudes covardes e imaturas, mas principalmente por ser a representação do ex-namorado insuficiente que a mocinha não merece.

No entanto, a 2ª temporada focou na desconstrução e reconstrução de Mickey, deixando de ser “o cão de lata da vez” para ser um respeitado líder de uma revolução contra os Cybermen em um universo paralelo.

 

Em 2007, Martha, a 1ª companion negra na TV

A 3ª temporada foi o grande choque na questão racial que envolve Doctor Who. Saía a companion loira Rose Tyler e entrava a primeira companion fixa negra de toda a história da série televisiva, Martha Jones, interpretada por Freeman Agyeman.

Infelizmente, a taxa de rejeição de Martha pela audiência é uma das mais altas da série moderna, e os motivos são polêmicos.

Um grande grupo associa a rejeição ao fato de Martha ser negra e que grande parte da audiência seria racista. Ouro grupo afirma que, independentemente da cor da companion, Martha era uma personagem fraca, irritante ou “não tão boa quanto Rose”.

Outro grupo ainda afirma que Martha era uma boa companion, mas Freeman não era uma boa atriz. Outros ainda dizem que não é nada disso, que o problema seria que o 10º Doutor não havia gostado de Martha em função do luto por Rose e que essa indiferença dele foi projetada na audiência.

Não é possível dizer o que realmente aconteceu, mas, no fim das contas, Martha tornou-se uma personagem extremamente forte e importante na série, sendo a responsável por salvar a Terra de um plano maligno do Mestre, resgatar o adormecido Doutor do seu alter ego humano John Smith, ser diversas vezes promovida na UNIT e ainda assim demitir-se e seguir carreira solo em trabalhos freelance, ao lado do novo marido… Mickey Smith.

 

Em 2017, Bill, a companion negra e gay

Após dez anos de companions ruivas e morenas, o Doutor se associa a uma nova companion negra, Bill Potts, interpretada pela atriz Pearl Mackie, que não apenas voltou a atiçar a discriminação que estava dormente na audiência de Doctor Who, como também trouxe à tona uma segunda característica polêmica: a homossexualidade.

Desde a primeira cena em que aparece, Bill deixou claro que gostava de mulheres e reforçou essa condição de forma recorrente ao longo da 10ª temporada. Assim como Freeman, Pearl também sofreu ataques da audiência por ser negra, e Bill, por ser “desnecessariamente” gay.

As aspas referem-se aos argumentos (da parcela de espectadores que não gostaram de Bill) de que a condição homossexual dela não foi algo útil para a história, quando a Piloto Heather poderia ser meramente uma figura masculina, sem que isso alterasse em nada a trama do casal.

Por outro lado, a audiência que gostou de Bill afirma que o tal argumento é apenas discriminação disfarçada e que a homossexualidade da personagem não precisava ser um elemento para a história, mas apenas mais uma característica dela, que deveria ser tratada com naturalidade. O fato de não ter havido uma recepção natural por parte do público comprovaria que o assunto ainda carecia de discussão e evidenciamento.

Um ponto positivo na característica homossexual de Bill Potts é que ela conseguiu deixar em segundo plano a negritude da personagem – ou pelo menos em não tão evidência quanto era a sexualidade. Ainda assim, os roteiristas da 10ª temporada não deixaram a questão racial de lado.

 

Escravidão e preconceito

Assim como Martha, Bill também trouxe à tona a preocupação com a escravidão de negros ao viajar para o passado. A própria personagem se assusta ao encontrar um alienígena azul, sendo taxada de “racista” por ele. Até o 12º Doutor dá um soco em um homem branco quando ele tenta humilhar Bill por ser negra.

Quando se viu sozinha em tempos antigos, a estudante de medicina Martha precisou disfarçar-se de criada doméstica para sobreviver e constantemente provar seu valor frente a atos discriminatórios de outras personagens antigas.

Até aqui no Universo Who, em vários momentos recebemos comentários discriminatórios contra Bill e Pearl, com opiniões pejorativas e discursos de ódio em relação à cor da pele dela. Todos foram moderados, indo direto para a lixeira.

 

Cada vez mais negros e negras

Ao longo da era moderna de Doctor Who, a série contou com uma proporção de atores e atrizes de cor negra muito maior do que a série clássica, em papéis secundários ou de apoio.

Doctor Who tem trazido uma variedade de importantes personagens negras, algumas boas e fortes, outras covardes e malvadas, adultas e crianças, homens e mulheres, humanos ou alienígenas.

Inclusive, tivemos uma menina estudante negra que, segundo o Doutor no episódio “Kill the Moon”, tornaria-se a futura presidente dos Estados Unidos da América. Também a fictícia Liz X (interpretada pela atriz Sophie Okonedo), que seria a futura rainha negra da Inglaterra.

“Basicamente, eu que mando.” (Rainha Elizabeth X)

Apesar de ainda não ter havido, canonicamente, um Doutor negro ou uma Doutora negra, em vários episódios temos personagens de cor negra com papéis-chave para a história, como foi o caso de Liz X no episódio “The Beast Below“, e também da criança Chloe Webber, interpretada pela atriz Abisola Agbaje, que foi a pivô do episódio “Fear Her“, na 2ª temporada.

 

Galeria de atores negros na era moderna

Separamos uma galeria de imagens para você relembrar alguns atores e atrizes de cor negra na série moderna, por ordem de temporada.

Você consegue se lembrar de todos?

 

Em 2018, Ryan, o 1º companion fixo negro

A 11ª temporada, que estreia no segundo semestre deste ano, além de trazer pela primeira vez uma mulher no papel protagonista (apesar de ser uma branca e loira), vai trazer o primeiro companion negro fixo, ou seja, que será permanente ao longo da temporada viajando na TARDIS com a Doutora (ao contrário de Mickey Smith, que só eventualmente viajava na máquina do tempo do 10º Doutor).

Trata-se da personagem Ryan, a ser interpretado pelo jovem ator negro britânico Tosin Cole. A personalidade e a trama de Ryan ainda são desconhecidas, visto que ainda estamos na época de gravações da 11ª temporada.

 

Em 2018, outra personagem importante é negra

Quando Ryan e os outros dois companions da 13ª Doutora foram anunciados, com eles também foi anunciada a participação de uma outra atriz, também negra, Sharon Clarke, que interpretará uma personagem recorrente, mas que não é uma companion.

Os rumores indicam que ela possa ser uma Senhora do Tempo (Missy, The Rani ou Romana), ou alguma personagem inédita, mas igualmente forte e importante, ainda que seja vilã. De qualquer forma, é mais uma personagem/atriz negra que entrará para o roll de elenco cânone de Doctor Who.

Além de atriz, Sharon também é cantora e membro da Excelentíssima Ordem do Império Britânico. Ela é casada com uma mulher, a escritora Susie McKenna.

 

Em 2018, ativistas negros serão personagens históricos

A 13ª Doutora vai viajar no tempo e conhecer os ativistas de direitos civis Rosa Parks e Fred Gray, ambos negros, na 11ª temporada.

A costureira norte-americana Rosa entrou para a história ao ser presa após recusar-se ceder o lugar no ônibus para um homem branco, em 1º de dezembro de 1955. Ela é considerada “a mãe do Movimento de Direitos Civis” até hoje.

Ela foi defendida na corte por outra figura histórica, o advogado Fred Gray, que também foi o primeiro presidente afro-americano a presidir a Ordem dos Advogados do Alabama, nos EUA.

Fred será interpretado pelo jovem ator negro londrino Aki Omoshaybi. Ainda não foi confirmado o nome da atriz que interpretará Rosa, mas personagens de apoio já foram confirmados, tais como o marido de Rosa, Raymond Parks, que será interpretado pelo ator David Rubin.

À direita, Aki Omoshaybi, que interpretará Fred Gray. À esquerda, David Rubin, que interpretará o marido de Rosa.

 

Doutor negro cânone já havia sido decidido

Você conhece o ator Chiwetel Ejiofor? Não? Bom, certamente você conheceria este nome hoje em dia se, em 2015, o ator Peter Capaldi não tivesse aceitado fazer só mais uma temporada interpretando o 12º Doutor.

Isso porque o então produtor-executivo e roteirista-chefe de Doctor Who, Steven Moffat, estava definitivamente querendo que a 10ª temporada contasse não apenas com uma companion negra (Bill Potts), mas como também com um Doutor negro.

Foi então que o nome de Chiwetel Ejiofor voltou para a mesa de discussão dos executivos da série, e era o nome mais cogitado dentre outros atores negros para o papel, tais como Idris Elba e os já atuantes em Doctor Who em papéis secundários, David Harewood e Paterson Joseph.

Você consegue reconhecê-los na imagem abaixo?

Na época, Moffat disse o seguinte:

“Absolutamente, isto seria revigorante. Dois protagonistas não-brancos em Doctor Who seria incrível. De fato, muita gente nem perceberia… Eu certamente não acho que jamais haveria problemas em fazer um Doutor negro, e este é o motivo pelo qual isso deveria acontecer algum dia. Quero dizer, nós tentamos. O papel foi oferecido para um ator negro, mas, por várias razões, não deu certo.”

Esse atores inclusive já estavam sendo cogitados assim que o ator Matt Smith anunciou que deixaria o papel de 11º Doutor, mas Peter Capaldi acabou assumindo o papel principal.

 

Então por que o 13º Doutor não foi um negro?

Não sabemos.

Entretanto, sabemos que a mudança no comando da série (agora nas mãos do produtor e roteirista Chris Chibnall) interferiu na escolha de uma mulher para o papel de Doutora.

A seleção de elenco é um processo mantido a sete chaves pelo departamento de Drama da BBC. Não sabemos quais outros atores ou atrizes estavam de fato no repertório de opções de Chibnall. Porém, a atriz Jodie Whittaker era uma profissional já conhecida por ele, tendo trabalhado juntos na série Broadchurch.

É possível que, sabendo do perfil da audiência (que talvez tenha mais propensão a aceitar personagens brancos e mulheres loiras no Reino Unido), a emissora tenha optado por um passo de cada vez. Uma loira hoje (para amenizar a ousada decisão da troca de gênero do protagonista), uma negra ou negro amanhã. Quem sabe?

Não é sem gerar polêmica que o papel do Doutor muda de tempos em tempos. Ora é muito jovem, ora muito velho, ora muito feio, ora muito bonito, ora isso, ora aquilo, ora mulher, ora negro ou negra… e por aí vai.

 

Já houve um “Doutor” negro na TV

Não foi cânone, mas “cânone” é quase uma questão de opinião entre o fandom de Doctor Who hoje em dia, que é muito diversificado.

Em 1985, o comediante negro Lenny Henry interpretou o Doutor, em uma sátira do show. O pequeno episódio teve duração de 5 minutos e fez parte do programa dele, o “The Lenny Henry Show“.

A história, escrita pelo próprio Lenny, se passava na Inglaterra do “futuro” (2010) e acabou prevendo que o 6º Doutor (o então atual) se regeneraria no chão da TARDIS em um momento de turbulência (o que aconteceria posteriormente no episódio “The Time and The Rani“).

Assista abaixo (em inglês, sem legendas):

A vestimenta dele era o cachecol do 4º Doutor nas cores vibrantes da roupa do 6º Doutor, por cima de uma jaqueta de couro preta (similar a que o 9º Doutor usaria no futuro), uma camiseta vermelha e calças amarelas com estampa xadrez parecidas com as vestidas pelos 1º e 2º Doutores.

Lenny causou uma comoção na audiência da época, e muitos fãs se manifestaram à BBC pedindo que ele fosse elencado como o novo Doutor cânone, na época ainda interpretado pelo ator Colin Baker.

 

E a campanha?

Sabendo de todas essas informações, vamos fazer agora o que a campanha propôs: discutir o assunto.

Recapitulando…

Vimos que, enquanto o cinema norte-americano estava dando Oscar a uma atriz negra na década de 30, o Reino Unido só foi ter um ator negro em um filme britânico na década de 60, mesma época em que Doctor Who teve seu primeiro ator negro.

Mesmo assim, ter só 0,5% de pessoas negras em papéis de liderança nos filmes e séries ao longo de uma década do século atual (2006 a 2016) ainda é um número ínfimo se comparado ao que poderia ser.

Atrizes negras premiadas dizem que o número é baixo por falta de papéis para negros, ou seja, na opinião delas, faltam roteiristas criando papéis de homens e mulheres negros em papéis fortes e protagonistas.

O que seria um(a) “Doutor(a) negro(a)”?

Porém, em um show como Doctor Who, cujo protagonista é um ser altamente mutável, o que precisa para que o Doutor seja negro ou Doutora negra?

Basta uma competição por talento entre atores e atrizes para que essa característica seja oficializada em uma regeneração cânone? Ou será que um roteirista-chefe precise “criar um Doutor negro” para só então fazer testes de elencos com atores negros?

Qual seria a diferença entre Doutores brancos e Doutores negros? Será que precisaria ter trejeitos ou maneirismos das culturas e comunidades negras ou isso seria apenas forçar estereótipos?

Se essa forçação for desnecessária, o que nos impede de ter um Doutor negro – e principalmente: o que nos impede de aceitar naturalmente um Doutor ou Doutora de cor negra?

Já vimos também que não há regras na regeneração dos Senhores do Tempo que impeça a troca de cor da pele. No episódio “Hell Bent”, o General (homem branco) regenera-se para uma mulher negra. Logo, em termos de história, nada impede.

Indução tendenciosa

A campanha ressalta a palavra “o suficiente” nos pôsteres:

“(…) você não vê pessoas negras o suficiente em papéis principais”.

Do inglês, “major roles” pode se referir não só ao protagonismo, mas também a papéis importantes ou papéis grandes; e isso, Doctor Who tem de sobra para negros e negras.

Quando a campanha associa o “estar surpreso” ao “não haver negros o suficiente”, temos aqui um equívoco induzido, que é a causa e consequência.

Quem olha o pôster e fica surpreso, não necessariamente fica surpreso por ser uma mulher negra no papel do Doutor, mas pode ser também por simplesmente ser uma pessoa diferente e desconhecida no lugar de uma personagem que, até então, sabemos muito bem quem é e como é.

Em outras palavras, “posso ter ficado surpreso(a) porque no pôster não há nenhum Doutor ou Doutora que conheço”.

Dessa forma, a indução da mensagem é tendenciosa – o que não descredibiliza de jeito algum o fato de que sim há poucos negros em papéis protagonistas no Reino Unido. A grande diferença é que, em Doctor Who, há um processo (ainda lento, mas em aceleramento) de ocupação de fortes e importantes personagens negros.

Audiência preconceituosa?

A era moderna de Doctor Who abraçou a questão racial em vários momentos diferentes ao longo das duas últimas décadas, ao ponto de que podemos acreditar ser apenas uma questão de tempo até que tenhamos não um, mas vários Doutores e Doutoras negros daqui para frente.

Quando vemos Martha Jones, Bill Potts ou até mesmo o Doutor repreendendo pessoas preconceituosas ou ensinando-lhes que os negros são tão capazes e dignos quanto qualquer outra pessoa, a série está, na verdade, ensinando a nós, a audiência.

Em termos de “massa”, talvez sejamos sim uma audiência preconceituosa em vários aspectos, por mais que já haja uma grande parcela que concorde e aceite as mudanças propostas, tais como as de sexualidade, cores de pele, gêneros e etnias, por exemplo.

Portanto, precisamos continuamente de ser ensinados e preparados. Todos nós, educados. É por isso que, por muitas vezes, o Doutor, seja para nós também um Professor.

A sociedade muda, e Doctor Who acompanha as mudanças, e vai além: propõe aquelas mudanças que ainda não aconteceram.

Foi isso que o autor de Class, Patrick Ness, declarou quando trouxe como protagonistas um jovem gay e uma adolescente negra (Tanya Adeola, interpretada por Vivian Oparah) no mais recente spin-off de Doctor Who:

“Uma das minhas crenças mais fundamentais é que um dos meios de mudar o mundo é agir como se o mundo já tivesse mudado.”

Ele falava sobre tratar as diferenças de sexualidade, cores e etnias como algo natural, mesmo em um mundo que, infelizmente, ainda não trata essas diferenças com a mesma naturalidade.

 

E você o que acha?

Portanto, agora é sua vez de se expressar:

Mande para nós sua opinião, seus comentários, seus pontos de vista. Concorda com a campanha? Quer um Doutor ou Doutora de cor negra? Por quê?

Só não se esqueça de falar com respeito nos comentários, porque mensagens de ódio serão deletadas.

Se souber inglês, procure acessar as fontes abaixo para saber mais sobre os dados trazidos neste artigo – e fique à vontade para sugerir mais temas de artigos aqui no Universo Who.

 

Texto: Djonatha Geremias (Universo Who)
Fontes: O Globo, Special Patrol Group, BBC News, Spotlight (via Twitter), RadioTimes, IMDb, Lost in Transcription, The Guardian, BuzzFeed e Daily Mail

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