Brigadeiro Lethbridge-Stewart completa hoje 50 anos desde a estreia

Há 50 anos, no dia 17 de fevereiro de 1968, o então coronel e futuro brigadeiro Alistair Gordon Lethbridge-Stewart, interpretado pelo ator Nicolas Courtney, entrava para o universo de Doctor Who e influencia a série até hoje.

O Universo Who traz a você a tradução inédita de um artigo publicado hoje pelo site britânico Doctor Who News, escrito por Peter Nolan, que homenageia a história desta importante personagem.

50 anos de Brigadeiro

17 de fevereiro de 1968. Há exatos cinquenta anos, o arco “The Web of Fear” (parte 3) era transmitido pela primeira e única vez; nunca mais foi vista, exceto por pequenas cenas que estavam em uma lata de filme em uma distante estação retransmissora. Uma lata que, sozinha, dissolveria-se no ar. Vale ressaltar que esta é uma perda particularmente trágica – o momento em que o 2° Doutor conhece (o então) Coronel Alistair Gordon Lethbridge-Stewart. Porém, estranhamente, mesmo se tivéssemos o episódio para incluir na nossa coleção junto aos cinco episódios recuperados, ainda não teríamos aquele mágico momento para assistir – o primeiro encontro entre os dois acontece inconvenientemente fora de cena, com o Doutor simplesmente aparecendo com o Coronel no reboque, descrevendo como eles esbarraram um no outro em um túnel.

Na reconstrução do episódio perdido, esta é a primeira imagem de aparição do Brigadeiro. Porém, o ator Nicholas Courtney já havia aparecido na era do primeiro Doutor, de William Hartnell, interpretando outra personagem.

 

A maneira desinteressada com que a personagem estreia é um registro do quão não planejado e orgânico é seu crescimento até se tornar uma lenda em Doctor Who. Ele se tornou um par para o desenvolvimento da série, é claro, possivelmente junto ao Mestre, que foi a única vez em que uma equipe de produção se preparou para criar a “próxima grande coisa” e obteve sucesso – os Krotons, Mechanoids e Zarbi entulham o campo de batalha de intenções de elementos para serem recorrentes, mas que não decolaram, enquanto de longe os Daleks foram as personagens mais exigidas, mas que pegaram os criadores de surpresa. Mesmo considerando isso, a evolução do Brigadeiro tem sido espantosa, desde um suspeito aparentemente astuto em uma caçada por um traidor, até ser uma personagem que é um totem universal de Doctor Who – tanto é que, quando Steven Moffat quis trazer o 1° Doutor cara a cara com a encarnação futura que está destinado a viver, foi o avô Lethbridge-Stewart da Primeira Guerra Mundial que ele trouxe para simbolizá-lo.

Em parte, esta evolução de convidado especial a ícone foi uma questão de sorte. Não tivesse sido a brilhante ideia de cortar custos ao deixar o Doutor preso à Terra, não haveria necessidade de a UNIT tornar-se uma instalação fixa do começo aos meados da década de 1970. No entanto, a cota de glória deste leão deve ir para o magnífico cavalheiro Nicholas Courtney. A circunstância promoveu o Brigadeiro de um convidado de um episódio para uma personagem fixa, mas foi Courtney que o elevou a uma lenda quase tão amada pelos fãs quanto era o próprio Doutor. A combinação dele de charme cálido, dignidade incorruptível e irônico autoconhecimento fez dele o perfeito homem para o egoísmo cáustico do Doutor de Jon Pertwee e a excentricidade imprevisível do de Tom Baker.

Talvez a melhor qualidade do Brigadeiro enquanto personagem seja a atitude frente a “o estranho, o inexplicável, qualquer coisa na Terra, ou ainda além”. Não importa o quão bizarra ou estranha fosse a ameaça, ele encarou tudo com a mesma aceitação racional de que o mundo era plena e singularmente um velho esquisito lugar, ao ponto de que ponderar as profundas questões metafísicas que surgiam fossem para ele menos importante do que descobrir em quais partes disso tudo ele precisaria dar um tiro. Às vezes, sim, com o passar do tempo, essa inclinação foi deixada de lado dando a ele a oportunidade de mostrar uma mentalidade de literal ignorância ao invés do desejo de uma rápida puxada de gatilho, mas o equilíbrio sempre acabava sendo restaurado.

Quando as pessoas pensam em momentos favoritos do Brigadeiro, estão a resposta dele ao ser confrontado por uma estátua viva animada por magia negra de além das profundezas da espécie humana (“No camarada com asas lá, cinco tiros rápidos”), a melhor resposta já dada ao descobrir que a TARDIS é maior por dentro (reclamando ao finalmente perceber o quanto do orçamento da UNIT obviamente se foi para o Doutor trabalhar nisso) ou suas respirações profundas ao descobrir que acabou de ser transportado a meia galáxia de distância a um “Zona de Morte” povoada por Yeti, Cybermen e outras bestas como se ele não esperasse nada menos do que isso.

Se alguma coisa comprova esta perfeita combinação de ator e personagem é o quão esquecível cada substituto do Brigadeiro provou ser. No arco “The Android Invasion“, nós até temos o Coronel Faraday, de Patrick Newell, como uma substituição tão direta e atrasada para o indisponível Nicholas Courtney que os diálogos dele praticamente não mudaram, ainda que Faraday nunca fosse além de um maquinário de roteiro para representar as autoridades no final de um punhado de episódios. Não foi até a introdução da filha do próprio Alistair, Kate Stewart, 44 anos depois, que tivemos novamente uma liderança da UNIT que valesse a pena revisitar, e não apenas convidados de uma única aparição, como o próprio Lethbridge-Stewart poderia ter sido.

Tão importante foi sua participação como instituição fixa em Doctor Who que, por décadas após ele não mais ser uma personagem recorrente, encontrar o Brigadeiro ainda era um sonho que todo Doutor precisava realizar. Não apenas ele reuniu-se com os 5° e 7° Doutores na televisão, mas claramente uma das prioridades mais imediatas da Big Finish em conseguir a licença legal era para dar aos 6° e 8° Doutores aventuras apropriadas ao lado dele. Até mesmo a regeneração de David Tennant estava planejada para ter um último encontro com o Brigadeiro, não fosse a piora na saúde de Courtney que tragicamente nos roubou a oferta de um brilhante time que poderia ter sido.

É isto, mais do que qualquer coisa, que tem solidificado o Brigadeiro como o improvável melhor amigo do Doutor, dentre todos. Enquanto fãs não conseguem concordar se ele qualifica-se como companion ou não, o fato é que houve tantos com quem o Doutor já viajou e que foram deixados em seu passado sem nem uma olhada para trás, ainda é o Brigadeiro para quem ele retornou várias e várias vezes.

Desde a morte de Nicholas Courtney em 2011, Doctor Who tentou mais de uma vez dar a ele uma saudação final, mas nem uma delas realmente funcionou, seja o último telefonema, o sobrenome dele em Kate, o último ato de heroísmo pelo controverso “Cyberbrigadeiro” ou o Capitão referenciado de Mark Gatiss. Nem uma delas emplacou o sentimento de uma palavra final que somasse à contribuição do Brigadeiro para a série.

Na verdade, provavelmente nada jamais consiga isso. O que podemos fazer esta noite é erguer um copo de seja lá o que você beba e brindar ao Brigadeiro Alistair Gordon Lethbridge-Stewart, cinquenta anos desde aquele trabalho com os Yeti.

Saúde, Brig!

 

Texto original: Peter Nolan (Doctor Who News)
Tradução: Djonatha Geremias (Universo Who)

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